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 MÚSICA 


Maestro Ricardo Rocha apresenta a obra-prima da história da música, A Paixão Segundo São João, de Bach, realizada pela Cia Bachiana Brasileira.  

Foto de divulgação

''Na realidade foi uma saga, uma verdadeira via crucis desde o início: a montagem começou com ensaios remotos de 3 e 4 cantores, e, depois, ensaios presenciais igualmente com grupos menores, em afastamento social.'' 

 

No Brasil,  o maestro Ricardo Rocha é Titular das Orquestras Sinfônicas da UFMT (1992-94) e da E.M. da UFMG, (1994-96), com Cátedra de Regência. Como convidado regeu a OSB, OSTM-SP, OSMG, OPES, OSN-UFF, OSBJ e a OJB.  Professor de Regência e Diretor sinfônico de 9 Festivais Internacionais. Gravou mais de 20 programas para TV e rádio, 7 CDs, 4 DVDs. Com a Orquestra Bachiana Brasileira fez turnê em Hanói e Singapura em 2009 a convite do Ministério das Relações Exteriores e hoje conta com mais de 70 vídeos no YouTube, onde se pode acessar um painel de teasers,  videogravações ao vivo, com diferentes obras, compositores, formas musicais e estilos de época:

 https://www.youtube.com/user/CBachianaBrasileira/playlists

 

É autor dos livros “Regência, uma arte complexa” (2004) e “As Nove Sinfonias de Beethoven – uma Análise Estrutural” (2013); Professor em Masterclasses e cursos de pós-graduação em História da Música na Faculdade São Bento (2000 a 2017), e no Conservatório Brasileiro de Música, (2013-2017). Rocha é também ensaísta.

  

"The Magical Sound-Sorcerer / Ricardo Rocha, the world ambassador for the classical music of Brazil” - Título da matéria de página inteira, com fotos frente à Orquestra Sinfônica de Bamberg, da  revista trimestral europeia “Drive”, em inglês, francês e alemão - (jan/2001).

Fundou e dirige a SMBB (1986); possui os títulos de Kappellmeister (Ópera e Concertos Sinfônicos pela Universidade de Karlsruhe, Alemanha), Mestre em Regência (UFRJ) e Comendador pelo Poder Judiciário do 23ª. Tribunal Regional do Trabalho, TRT.

 

Alemanha: criou e dirigiu o ciclo Brasilianische Musik im Konzert (1989-2000) para difusão da Música Brasileira de Concerto, frente às Sinfônicas de Bamberg, Turíngia, Südwestfallen e Baden-Baden. 

  

1 - Maestro, Como foi fazer essa montagem em plena pandemia? 

O coro foi separado em dois madrigais: um de solistas, cantando toda a obra, e outro de apoio, para o coro inicial, os onze corais e o penúltimo coro, Ruht wohl, peças com imagens poéticas atuando como ‘respirações homofônicas ao longo da obra polifônica.

Porém a cada dia novos obstáculos apareciam como pedras em nosso caminho: doenças, desistências, pânico e três mudanças de datas por lockdowns na cidade impondo-nos perdas de instrumentistas, entre eles músicos convidados de São Paulo, que já chegaram para o ensaio tendo de retornar no dia seguinte, o que foi um grande prejuízo; perdemos também vozes solistas, 10 dos 16 cantores do madrigal de apoio já ensaiados e grande foi a dificuldade de encontrar locais para ensaios, concerto e gravação, ficando nossos esforços sempre aquém do empenho para realizar o projeto.

 

Mas a obra era e Bach, que passou sua vida escrevendo ao fim de cada uma de suas composições: “Soli Deo Gloria” (Glória somente a Deus), reconhecendo que a vida que inspirava e materializava o seu trabalho no mundo não vinha de si mesmo, mas Daquele em quem ele colocava a sua fé. Em espelho, passamos a reconhecer, no processo, o mistério de soluções brotando que não teríamos como encontrar sozinhos, pois que estavam para além das nossas forças, mérito e vontade. Era o imponderável acontecendo: a cada dia, tudo o que se perdia era-nos oferecido de outra maneira, melhor e com uma medida mais adequada às necessidades reais da montagem. Foi quando compreendemos que essa era uma montagem viva, com moto-próprio, marcada para florescer aqui ao sul do Equador, com cores e perfume próprios, como obra agradável a Deus.

 

A noite antes do ensaio geral foi bastante tensa para todos, apreensivos com os testes obrigatórios de Covid, visto que bastava um resultado positivo ou mesmo falso positivo para derrubar o edifício de nossa enxuta produção, pois que, dependendo da pessoa, toda a montagem cairia. Contudo, tivemos 100% de resultados negativos!

Após a gravação, mais de três meses ainda se arrastariam com problemas de edição e outros que surgiram, até cumprirmos a nossa missão.

 

2 - Por que, entre tantos compositores, a escolha por Bach?

Essa é uma pergunta complexa, que demandaria muito tempo para ser respondida em seus diferentes aspectos. Como primeiro deles eu entendo que  foi a sua capacidade de síntese e organização musical. Na história da Música pode-se debater quem foi o maior compositor de todos os tempos e haverá discordâncias; porém fica difícil discordar de que Bach foi o mais importante, na medida em que ele levou à plenitude todas as formas musicais que o Ocidente vinha produzindo antes dele, especialmente o Moteto e a Fuga; por outro lado, em suas obras está clara a música do futuro que ele também escreve, com harmonias tão complexas ou mais do que as das gerações que o sucederam. 

Um segundo aspecto é o fato dele ter sido o único a resolver o impasse que a música do Ocidente vinha sofrendo desde que mergulhou no caos ao final da Renascença, com a descoberta do acorde e o nascimento  da Harmonia como ciência musical, que só ganharia o seu primeiro tratado com Rameau, na França em 1722.  Curiosamente, este foi o ano em que Bach publicou seu primeiro volume do Cravo Bem Temperado, a proposta de um sistema novo de escalas maiores e menores, o Sistema Tonal, nascido da subdivisão da oitava justa da Natureza, descoberta por Pitágoras. Bach dividiu essa oitava em doze partes igualmente artificiais, ou semitons iguais, uma vez que eles não existem n Natureza com essas frequências precisaram ser ajustadas em sua afinação, ou seja, “temperadas” por Bach. 

 

Se em 1722 ele publicou o primeiro volume dos 24 prelúdios e fugas maiores e menores ascendentes (‘sustenizadas’), dez anos depois, em 1732, ele o faria com novos 24 prelúdios e fugas agora descendentes (“bemolizadas”).   Esse novo sistema, a Tonalidade,  só seria popularizado mais de  um século depois, com o nascimento e desenvolvimento do piano-forte, a ‘estrela instrumental’ da música no século 19.  No século 20, com o advento do rádio, ele inspiraria a música popular de praticamente todo o planeta, sendo que, no século 21 a música popular, seja ela artística e autoral ou industrial, vive tão somente alimentado pela  tonalidade e de seu sistema bachiano de escalas maiores e menores.

Enfim, existem outros aspectos a serem considerados e um deles é muito específico e toca a musicalidade do povo brasileiro, pois que a música de Bach possui uma pulsão e um vigor, unidos à uma espiritualidade latente, que guarda semelhanças com a música do Brasil, seu folclore, sua música popular e também a sua música culta, grafada, sinfônica e camerísticas, especialmente a partir de Villa-Lobos.

 

Foto de divulgação
 

Aqui chegamos a um mistério  interessante, pois que Villa-Lobos, inspirado e influenciado pela música de Bach que sua tia Zizinha tocava pra ele em sua infância, levou-o a interessar-se pelo Choro, típica música de conjunto instrumental carioca, que depois até ganhou cantou, mas até hoje é caracterizado principalmente pelas cordas dedilhadas, a flauta e a clarineta.

O fato é que se podem perceber, e essa percepção em Villa-Lobos foi certamente inconsciente, traços comuns que ligam a fase pela qual passava o povo alemão em busca de sua própria identidade na primeira metade do século XVIII, com o momento histórico do Brasil também na primeira metade do século XX, igualmente em busca de sua identidade nacional e cultural.

A Alemanha do Ottocento era ainda uma nação fragmentada e formada pela Prússia e pela Áustria, submetida a diversos tipos de regimes despóticos de "príncipes eleitores”, príncipes eclesiásticos, barões, prelados e 51 cidades imperiais, com cerca de 300 territórios independentes, porém já movidos pela ideia de criar seu próprio Estado Nacional, como a vizinha França, o que aconteceria com a unificação que Bismarck faria no século XIX. O fato é que os alemães de então eram olhados com certo despeito e até mesmo tidos como 'bárbaros' por círculos franceses e italianos.

 

- Note-se que àquela época em Berlim, a língua culta usada era o francês, como no Rio de Janeiro republicano do século XIX. Mas eles, os alemães da geração de Bach, eram um povo jovem, lutando ferrenhamente pela afirmação de sua identidade cultural, social, política e econômica, frente à uma Europa sob domínio inglês e espanhol nos mares e nas terras do Novo Mundo, assim como italiano e principalmente francês na cultura do continente europeu.

E não era justamente isso o que começava a acontecer conosco no Brasil do Modernismo musical no Rio de Janeiro, à época dos saraus do Círculo Veloso-Guerra, portanto antes mesmo da Semana de Arte Moderna em São Paulo, em 1922, e daí por diante? Não foi esse o movimento que deu início à busca de nossa identidade cultural no século XX, nós que, então, éramos os bárbaros da hora, especialmente diante da efervescência da uma Europa em plena Revolução Industrial?

 

Assim, a questão é entender entender como Villa-Lobos pôde construir essa ponte atemporal de afetos e expressões musicais entre entre povos e épocas tão diferentes, ainda que entre eles possamos encontrar, ainda que cada um em seu tempo e curva de trajetória, a semelhança a força e a vitalidade com que ambos empreendiam a busca de sua própria identidade cultural.

O povo alemão, de um lado profundamente musical e religioso, mas, de outro, igualmente envolvido e influenciado  pelo o crescente materialismo iluminista das cortes vizinhas e da própria côrte de Frederico da Prússia, em Berlim, fez com que a Alemanha conseguisse, em pouco mais de um século, levantar e oferecer ao mundo uma cultura e um perfil próprios, capaz de influenciar toda a humanidade nas artes, na literatura, nas ciências e demais áreas do conhecimento humano.

 

Naturalmente, seguindo esse padrão, esperamos que o Brasil não demore muito tempo para se levantar de vez, como vem aguardando desde o século XX. Contudo, naquele momento entre 1930 e 1945, em que nosso país  esbanjava entusiasmo e viço cultural juvenis, foi que nasceu a ponte já percebida lá atrás, no espírito do pequeno Heitor em sua infância: a pulsão e a força presentes no ciclo 'Bachianas Brasileiras' como expressão da vitalidade e do vigor do povo brasileiro no momento histórico de sua busca e afirmação do próprio perfil e da própria identidade cultural, com um vigor e uma vitalidade que não eram diferentes da do povo alemão quando Bach a registrou em suas obras.

Portanto, foi ele, Villa-Lobos, quem primeiro percebeu a profunda ligação entre a música de Johann Sebastian Bach e a da nossa 'Terra Brasilis'. Em outras palavras, foi ele quem, intuitiva ou conscientemente, apenas ligou os pontos: o encontro da pulsão bachiana com a brasileira, para além do tempo e do espaço, da lógica e da cultura; um encontro, por assim dizer, do espírito e da linguagem comuns, de um canal de comunicação que não é outro senão o  estritamente musical.

 

Acreditamos no acerto de toda essa visão, como certeiras foram também as palavras de Villa-Lobos quando declarou:  Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta”.  Porque suas cartas estão sendo cada vez mais  lidas e compreendidas pelo Brasil profundo que ora se levanta e, por essa razão, ao propormos a primeira gravação mundial em vídeo dessa coleção, a ideia é a de ampliar a leitura de suas ‘cartas’ para um mundo, hoje, todo interligado digitalmente.  Este é o nosso objetivo, a base de sustentação de todo este projeto: como posteridade de Villa-Lobos, queremos oferecer, ao Brasil e ao mundo, a resposta que ele não esperava ao testamento musical que nos legou; queremos dar uma voz maior às suas ‘cartas’ como quem revela o Brasil do futuro que ele vislumbrou na história das nações.

  

Foto de divulgação
 

3 - Como uma companhia de música de concerto consegue sobreviver sem um patrocinador fixo?

Sinceramente não sei ainda, pois que é o que buscamos há mais de duas décadas.  Na realidade isso depende de uma mudança cultural na sociedade civil, que precisa tomar as rédeas de sua existência e decidir o que quer e o que não quer em seu próprio meio.  E se ela quiser que a música de concerto e seu cultivo não entrem em extinção, por compreender que essa música culta e erudita é provavelmente a expressão mais sofisticada do espírito humano e também a  que mais nos afasta da barbárie, deve colaborar política e financeiramente para que isto aconteça. Esse turning point precisa acontecer.   Quem sabe, não é?   Estamos trabalhando para isso e a Bachiana Brasileira não é um só um projeto de vida, mas um projeto de vida póstuma, para as próximas gerações.

 

4) Como o público  poderá assistir a esta obra-prima da história da música?

Gostaria de convidar a todos, para assistir A Paixão Segundo São João, de Bach, realizada pela Cia Bachiana Brasileira. A apresentação estará disponível, gratuitamente, em nosso Canal do YouTube (Cia Bachiana Brasileira), a partir das 19h deste sábado, dia 07 de agosto. Esperamos vocês. 


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